Paulo Roberto Gomes Fernandes acompanhou, ainda em 2018, os desdobramentos políticos que surgiram após a realização da International Pipelines Conference, em Calgary, quando o então líder conservador canadense Andrew Scheer passou a defender publicamente a aceleração da conclusão do gasoduto Trans Mountain. Observado a partir de janeiro de 2026, aquele movimento é hoje interpretado como um dos primeiros sinais de endurecimento do discurso político em torno da infraestrutura energética no Canadá, em resposta à crescente oposição a novos projetos de oleodutos na América do Norte.
Naquele contexto, Andrew Scheer apresentou um plano para destravar a expansão do Trans Mountain Pipeline, obra destinada a ligar a província de Alberta ao litoral da Colúmbia Britânica, em Burnaby, ampliando a capacidade de escoamento do petróleo canadense para mercados internacionais. A proposta incluía medidas legislativas para contornar uma nova rodada de audiências do Conselho Nacional de Energia, além da nomeação de um enviado especial encarregado de negociar diretamente com comunidades indígenas afetadas pelo traçado do gasoduto.
O ambiente político após a IPC de Calgary
Os ecos da International Pipelines Conference foram imediatos. Realizada poucos dias antes das declarações de Scheer, a conferência reuniu operadores, engenheiros, fornecedores de tecnologia e representantes governamentais, colocando em evidência o impasse entre a necessidade de expansão da infraestrutura energética e a crescente resistência social e ambiental a novos oleodutos.
Para Paulo Roberto Gomes Fernandes, o discurso do líder conservador refletia uma preocupação crescente de parte da classe política canadense com a perda de competitividade do setor energético. Sem novas rotas de exportação, o petróleo produzido em Alberta continuaria excessivamente dependente do mercado norte-americano, limitando margens e reduzindo o potencial econômico do país.
Comparações com o endurecimento legal nos Estados Unidos
Embora o plano de Andrew Scheer não previsse ações tão duras quanto as adotadas em alguns estados norte-americanos, o debate no Canadá passou a ser influenciado por medidas implementadas nos Estados Unidos. À época, estados governados por republicanos começaram a aprovar legislações mais rigorosas para coibir protestos contra oleodutos, classificando essas infraestruturas como “instalações críticas”.
Casos como o da Louisiana, que criminalizou invasões de propriedades ligadas ao setor de petróleo e gás, passaram a ser citados como exemplos de reação institucional aos movimentos de protesto. Em outros estados, como Pensilvânia, Minnesota e Oklahoma, projetos semelhantes avançaram, prevendo multas elevadas e até penas de prisão para manifestantes e organizações que apoiassem atos considerados ilegais.
Paulo Roberto Gomes Fernandes observava que, embora o Canadá historicamente adotasse uma postura mais conciliatória, o acúmulo de atrasos e decisões judiciais adversas poderia levar o país a discutir instrumentos legais mais firmes para garantir a execução de obras consideradas estratégicas.
A Trans Mountain como peça-chave da estratégia energética canadense
Para muitos canadenses, especialmente nas províncias do oeste, a expansão da Trans Mountain era vista como fundamental para garantir o futuro do setor energético nacional. O gasoduto permitiria o acesso a mercados asiáticos, reduzindo a dependência de um único comprador e fortalecendo a posição do Canadá no comércio internacional de energia.

Nesse cenário, Paulo Roberto Gomes Fernandes avaliava que a percepção de “inevitabilidade” do projeto passou a ser um elemento central do discurso político. A ideia não era eliminar toda oposição, mas neutralizar focos estratégicos de resistência, criando as condições políticas e institucionais necessárias para a retomada das obras.
Judicialização e entraves regulatórios
Apesar do apoio político, a expansão da Trans Mountain enfrentava obstáculos relevantes. Em agosto de 2018, o Tribunal Federal de Apelações anulou a aprovação federal do projeto, apontando falhas no processo de consulta às nações indígenas e insuficiência na análise do aumento do tráfego de petroleiros na costa da Colúmbia Britânica.
O governo canadense foi obrigado a solicitar ao Conselho Nacional de Energia que revisse esses pontos, estabelecendo novos prazos e ampliando os estudos ambientais. Na ótica de Paulo Roberto Gomes Fernandes, esse episódio ilustrou a complexidade crescente dos grandes projetos de infraestrutura, cada vez mais submetidos a escrutínio jurídico detalhado e a múltiplas instâncias de decisão.
Engenharia, túneis e desafios técnicos
Paralelamente ao debate político e jurídico, a expansão da Trans Mountain envolvia desafios técnicos significativos, especialmente em trechos que exigiriam travessias subterrâneas sob formações montanhosas. A participação de empresas com experiência em lançamento de dutos em túneis longos era vista como estratégica para viabilizar o cronograma e reduzir impactos ambientais.
Paulo Roberto Gomes Fernandes acompanhava essas discussões com atenção, entendendo que a engenharia aplicada a ambientes confinados poderia desempenhar papel decisivo na superação de resistências técnicas e ambientais, sobretudo em regiões sensíveis como as Montanhas Rochosas.
Um debate que antecipou mudanças estruturais
Revisitado a partir de 2026, o posicionamento de Andrew Scheer em 2018 é interpretado como parte de um movimento mais amplo de reposicionamento do debate energético no Canadá. A defesa explícita da aceleração da Trans Mountain antecipou discussões que se intensificariam nos anos seguintes sobre soberania energética, segurança de abastecimento e equilíbrio entre desenvolvimento econômico e proteção ambiental.
Paulo Roberto Gomes Fernandes conclui que aquele momento marcou o início de uma fase em que decisões sobre oleodutos deixaram de ser apenas técnicas ou econômicas e passaram a ocupar o centro do debate político nacional. A Trans Mountain transformou-se, assim, em símbolo de um dilema que continua atual: como expandir a infraestrutura energética em democracias cada vez mais sensíveis a questões ambientais e sociais.
Autor: Vondern Samsyre
