Redes de laboratórios que prestam serviços a operadoras de saúde, hospitais e clínicas utilizam recebíveis de convênios e contratos corporativos como lastro para financiar a expansão de unidades de coleta e capacidade de processamento de exames
O setor de análises clínicas no Brasil opera majoritariamente sob um modelo de faturamento indireto, no qual laboratórios prestam serviços a operadoras de planos de saúde, hospitais e clínicas médicas, recebendo pelos exames realizados conforme cronogramas de repasse definidos em contrato com cada um desses parceiros. Esse modelo, semelhante ao observado em outros segmentos da cadeia de saúde suplementar, cria um intervalo entre a realização do exame e o efetivo recebimento dos valores correspondentes, período que costuma se estender por semanas e que precisa ser financiado pelo próprio laboratório até a confirmação do repasse.
Redes de laboratórios que buscam expandir sua capacidade de atendimento, seja por meio da abertura de novas unidades de coleta ou da ampliação de sua estrutura de processamento de exames mais complexos, enfrentam necessidade de capital compatível com esse ciclo de recebimento mais longo, o que leva um número crescente de operadores desse setor a considerar a antecipação de recebíveis via fundos estruturados como alternativa ao crédito bancário tradicional.
Diversificação entre convênios reduz concentração de risco
Um laboratório que concentra parcela relevante de sua receita em poucas operadoras de saúde fica mais exposto a mudanças unilaterais nas condições de repasse ou a atrasos pontuais de pagamento por parte de um único parceiro comercial, o que torna a diversificação da base de convênios um fator relevante na composição de uma carteira de recebíveis desse setor. Laboratórios que atendem tanto operadoras de planos de saúde quanto hospitais e clínicas de forma direta tendem a apresentar um perfil de receita mais diversificado do que operações concentradas em um único tipo de cliente institucional.
A ID CTVM atua como administradora fiduciária e custodiante de fundos estruturados voltados a diferentes segmentos da economia real, o que inclui operações lastreadas em recebíveis de laboratórios de análises clínicas, aplicando a esses ativos processos de conciliação e auditoria de lastro adaptados às particularidades do relacionamento entre laboratório, operadora de saúde e paciente.
Glosas de convênios exigem metodologia própria de análise
Para Rodrigo Balassiano, diretor da ID CTVM, um dos aspectos mais específicos da estruturação de crédito lastreado em recebíveis de laboratórios está na análise do histórico de glosas aplicadas pelas operadoras de saúde.
“Diferentemente de uma venda concluída no varejo, o valor faturado por um laboratório a uma operadora de saúde pode ser parcialmente contestado após a prestação do serviço, prática conhecida no setor como glosa, seja por divergências no código do procedimento realizado ou por questionamentos sobre a pertinência clínica do exame solicitado. É preciso avaliar o histórico de glosas de cada laboratório junto a cada operadora específica antes de dimensionar com segurança o volume de recebíveis elegível a uma operação de crédito estruturado”, explica o executivo.
Complexidade do exame influencia o prazo de repasse
Exames de maior complexidade, que exigem equipamentos específicos e prazos mais longos de processamento, costumam seguir cronogramas de repasse diferentes dos aplicados a exames de rotina, mais simples e de resultado mais rápido, o que exige que administradores fiduciários segmentem a carteira de recebíveis de um laboratório conforme o tipo de exame realizado, e não apenas conforme a operadora de saúde responsável pelo pagamento. Laboratórios que concentram parte relevante de sua receita em exames de alta complexidade tendem a apresentar um ciclo de recebimento mais longo, ainda que com margens operacionais geralmente superiores às observadas em exames de rotina de menor valor agregado.
Credenciamento junto a operadoras sustenta a previsibilidade da receita
A manutenção do credenciamento de um laboratório junto às principais operadoras de saúde de sua região de atuação é condição essencial para a continuidade do fluxo de recebíveis que lastreia uma operação de crédito estruturado, uma vez que o descredenciamento por parte de uma operadora relevante pode reduzir de forma abrupta a receita da unidade financiada. Administradores fiduciários acompanham, nesse contexto, a situação do credenciamento de cada laboratório cedente junto a seus principais parceiros institucionais, como parte do processo de due diligence que antecede a estruturação da operação.
Perspectivas para o crédito estruturado na cadeia de diagnóstico
Com a demanda por exames laboratoriais mantendo trajetória de crescimento no Brasil, impulsionada pelo envelhecimento populacional e pela ampliação do acesso a planos de saúde privados, a tendência é que operações de crédito estruturado lastreadas em recebíveis de laboratórios de análises clínicas ganhem espaço complementar dentro da indústria de FIDCs voltada à cadeia de saúde suplementar. Para administradores fiduciários especializados nesse segmento, acompanhar o histórico de glosas, a diversificação de convênios e a situação de credenciamento de cada laboratório deve seguir como um fator relevante para sustentar a confiança de investidores nesse segmento da economia real.
Sobre a ID CTVM
A ID CTVM é uma instituição especializada em infraestrutura para o mercado de capitais, com serviços de administração fiduciária, custódia, escrituração, controladoria e distribuição de fundos de investimento. Fundada em 2020, a companhia reúne atualmente mais de 550 fundos e mais de R$ 50 bilhões sob administração e custódia, com presença relevante em estruturas como FIDCs, FIPs e FIIs. Combinando tecnologia, governança, conhecimento regulatório e eficiência operacional, a ID oferece suporte a gestores, investidores, empresas e demais participantes do mercado, contribuindo para operações mais seguras, eficientes e transparentes.
