O médico radiologista Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues lembra que algumas formas de câncer de mama não começam com um nódulo, mas com uma alteração na pele do mamilo que pode ser facilmente confundida com alergia. A doença de Paget da mama é rara e costuma ser tratada por meses como eczema antes de receber o diagnóstico correto. Uma situação anonimizada ajuda a mostrar como os sinais aparecem e por que a investigação não deve ser adiada.
Uma lesão que não melhorava
Uma mulher de 56 anos percebeu vermelhidão e descamação no mamilo direito, acompanhadas de coceira e ardor. Achando que se tratava de reação ao sabonete ou ao tecido do sutiã, trocou produtos e passou a usar uma pomada indicada por uma conhecida.
Os sintomas melhoravam por alguns dias e voltavam. Depois de três meses, surgiram pequenas crostas e uma secreção que manchava a roupa. Somente então ela procurou atendimento, ainda convencida de que o problema era apenas de pele. Não havia nódulo palpável, e a mamografia de rotina estava atrasada havia mais de dois anos.
O que é a doença de Paget da mama
A doença de Paget é uma forma de câncer que atinge a pele do mamilo e da aréola. Células malignas se instalam na camada superficial da pele e provocam inflamação, descamação e feridas. Representa uma pequena parcela dos cânceres de mama e é mais comum em mulheres acima dos 50 anos.
Na grande maioria dos casos, existe um tumor associado no interior da mama, seja um carcinoma ductal in situ, seja um câncer invasivo. Segundo Vinicius Rodrigues, a alteração no mamilo funciona muitas vezes como um sinal externo de uma lesão que ainda não foi percebida por outros meios.
Sinais que ajudam a diferenciar do eczema
Algumas características aumentam a suspeita. A doença de Paget costuma atingir apenas um lado, enquanto o eczema e as dermatites alérgicas tendem a afetar as duas mamas. A lesão começa no próprio mamilo e depois se estende para a aréola, e não o contrário.
Coceira, ardor, crostas, secreção com ou sem sangue e retração do mamilo podem estar presentes. Um ponto central é a persistência: a lesão não desaparece completamente com cremes e pomadas, ou volta logo após o tratamento ser interrompido. Pomadas com corticoide podem aliviar temporariamente os sintomas, o que contribui para o atraso no diagnóstico.
Como foi feita a investigação
No caso descrito, o médico pediu mamografia e ultrassonografia antes de qualquer outro tratamento. A mamografia mostrou um grupo de microcalcificações próximo à aréola, compatível com lesão ductal. A confirmação veio com a biópsia da pele do mamilo e, em seguida, com a biópsia guiada por imagem da área identificada.
Na avaliação de Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, os exames de imagem são essenciais nessa investigação porque mostram se há tumor no interior da mama e qual é sua extensão. Quando a mamografia e a ultrassonografia não encontram alterações, a ressonância magnética pode ser indicada.
Tratamento e lições do caso
O tratamento envolve cirurgia, que inclui a retirada do complexo formado pelo mamilo e pela aréola e, conforme a extensão da doença, de parte ou de toda a mama. Em casos selecionados, a reconstrução do mamilo pode ser planejada depois. Radioterapia e outros tratamentos complementares dependem das características do tumor associado.
A paciente teve o diagnóstico de carcinoma ductal in situ, fase inicial da doença, e seguiu o tratamento com bom prognóstico. Conforme destaca Vinicius Rodrigues, qualquer lesão no mamilo que persiste por mais de algumas semanas, especialmente em apenas uma mama, deve ser avaliada por um médico, mesmo quando parece uma simples irritação de pele.
