A acusação de racismo feita por Vinícius Jr. durante a partida entre Real Madrid e Benfica na Liga dos Campeões desencadeou um dos episódios mais sensíveis e complexos do futebol europeu recente. Nos últimos dias, o jovem atacante argentino Gianluca Prestianni já prestou o primeiro depoimento à UEFA, oferecendo uma versão que difere da acusação inicial. Neste artigo, analisamos os desdobramentos mais relevantes do caso, os bastidores dessa investigação e o impacto prático para o futebol contemporâneo.
O conflito começou no duelo válido pela fase preliminar da Champions League, quando Vini marcou o gol da vitória por 1 a 0 e, pouco depois, acusou o jogador do Benfica de proferir um insulto racista contra ele em campo. A acusação levou à ativação imediata do protocolo antidiscriminação da UEFA, e o jogo foi interrompido por mais de dez minutos enquanto a situação era formalizada com o árbitro e os capitães das equipes.
No centro da controvérsia está a própria fala atribuída a Prestianni. No primeiro depoimento à UEFA, o atleta argentino negou ter chamado Vinícius Jr. de “mono” — o termo em espanhol equivalente a “macaco” e amplamente interpretado como racial — e afirmou que teria usado a palavra “maricón”, que em castelhano pode ser usada como ofensa homofóbica ou para chamar alguém de “chorão”.
Essa diferença de interpretação é crucial. A mudança de suposto insulto gera uma discussão jurídica e ética sobre como as instituições esportivas tratam ofensas discriminatórias de diferentes naturezas. Para a UEFA, tanto a expressão alegadamente racista quanto a insultante em outra dimensão podem resultar em sanções semelhantes – suspensões longas e outras punições previstas no regulamento disciplinar da entidade europeia.
O Real Madrid, por sua vez, reafirmou seu alinhamento com a investigação e declarou ter enviado “todas as provas disponíveis” à UEFA para colaborar com o processo. O clube enfatizou a importância de erradicar racismo, violência e ódio no esporte, além de agradecer o apoio que Vinícius Jr. recebeu internacionalmente após a denúncia.
Enquanto isso, o Benfica emitiu uma reação formal, defendendo Prestianni e classificando as acusações que envolvem o atleta como parte de uma “campanha de difamação”. O clube afirmou seu compromisso com valores como igualdade e inclusão, embora tenha insistido que não há evidências claras de racismo proferido em campo.
A investigação da UEFA é objeto de intenso escrutínio porque obtém protagonismo em um momento em que o combate ao racismo no esporte, e especialmente no futebol, segue sendo um dos grandes desafios institucionais. Para muitos analistas, o episódio evidencia falhas crônicas nos mecanismos de prevenção e resposta a episódios de discriminação que se repetem há anos, envolvendo públicos, atletas e situações diversas. A própria trajetória de Vinícius Jr., alvo de atos racistas documentados em diferentes ligas europeias, demonstra a persistência dessa problemática.
Tecnicamente, para que a UEFA imponha qualquer sanção efetiva, a investigação deve estabelecer com clareza o que foi dito e se isso configura uma violação do regulamento disciplinar europeu. Testemunhos de jogadores que estavam próximos à ação no momento da suposta ofensa se tornaram essenciais, já que não há gravação definitiva do áudio, e a única evidência inicial foi a declaração do próprio Vinícius Jr. e a interpretação de companheiros de equipe.
De forma prática, isso coloca a UEFA em uma encruzilhada normativa. Por um lado, existe a necessidade de agir com rigor diante de denúncias de racismo para manter a integridade da competição e proteger jogadores. Por outro, há a exigência de basear decisões em provas que sustentem uma punição justa dentro do contexto esportivo. A posição da entidade, ao nomear um Inspetor de Ética e Disciplina, sugere um compromisso com uma análise criteriosa e imparcial, ainda que demorada.
Esse caso também traz à tona a discussão sobre como clubes, federações e torcidas lidam com comportamentos discriminatórios. A repercussão do episódio entre Real Madrid e Benfica estimula reflexões sobre a eficácia dos protocolos existentes e a necessidade de reforços educativos e práticos no futebol mundial.
Ao avançar, a investigação da UEFA servirá não apenas para dirimir culpabilidades específicas, mas também como um indicador de até que ponto o combate ao racismo está integrado aos mecanismos institucionais do futebol moderno. A forma como essa situação é resolvida poderá definir precedentes relevantes e apontar direções para políticas esportivas e sociais mais eficazes no futuro.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez