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Tecnologia

Inteligência artificial entra no radar do futebol brasileiro e pode mudar como clubes descobrem novos talentos

Marcos DelvieraBy Marcos Delvierasetembro 14, 2026Nenhum comentário7 Mins Read
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Inteligência artificial entra no radar do futebol brasileiro e pode mudar como clubes descobrem novos talentos
Inteligência artificial entra no radar do futebol brasileiro e pode mudar como clubes descobrem novos talentos
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Novas discussões sobre tecnologia mostram como dados e inteligência artificial podem transformar scouting, formação de atletas e decisões dos clubes.

A inteligência artificial começa a deixar de ser apenas uma ferramenta de análise usada nos bastidores dos grandes clubes e passa a ocupar espaço estratégico no futebol brasileiro. Nos últimos dias, debates realizados durante a Confut Sudamericana 2026 colocaram tecnologia, formação de atletas e relacionamento com o torcedor entre os assuntos centrais da indústria esportiva. A própria CBF participou das discussões e destacou a necessidade de profissionalizar processos e integrar diferentes setores do futebol.

O movimento ganha importância porque a tecnologia já está sendo utilizada em diferentes etapas do esporte, desde a arbitragem até o monitoramento de jogadores. Um exemplo recente veio do Capital, clube de Brasília, que recebeu empresários sauditas para apresentar uma plataforma de inteligência artificial voltada à identificação e conexão de jovens talentos.

Para o torcedor, a dúvida é inevitável: a inteligência artificial vai começar a escolher os próximos craques do futebol brasileiro? A resposta é mais complexa. A tecnologia não substitui o treinador, o observador ou o conhecimento acumulado por quem acompanha um jogador, mas pode ampliar enormemente a quantidade de informações disponíveis para encontrar atletas, comparar desempenhos e antecipar potenciais.

Como a inteligência artificial está entrando no futebol brasileiro

O caso apresentado ao Capital ajuda a entender uma das mudanças mais importantes. Uma plataforma desenvolvida na Arábia Saudita foi apresentada ao clube com a proposta de utilizar inteligência artificial para ampliar a identificação e a visibilidade de jovens jogadores, conectando talentos a oportunidades de avaliação e desenvolvimento. A iniciativa foi apresentada em 9 de setembro e tem potencial de alcançar um universo muito maior do que o tradicional modelo de observação presencial.

Isso importa especialmente para um país do tamanho do Brasil. Durante décadas, a descoberta de jogadores dependeu de olheiros, campeonatos de base, indicações, empresários e redes de relacionamento que nem sempre conseguem alcançar todas as regiões. Uma ferramenta digital pode cruzar informações de partidas, características físicas, desempenho técnico e histórico de desenvolvimento, criando filtros que ajudam os departamentos de futebol a encontrar nomes que poderiam passar despercebidos. O ganho, portanto, não está apenas em descobrir mais jogadores, mas em aumentar a capacidade de comparação entre atletas de diferentes locais.

A CBF também vem colocando a formação no centro de sua agenda. Em 10 de setembro, o gerente geral técnico das Seleções Masculinas, Cícero Souza, participou de um painel da Confut Sudamericana sobre gestão e formação, defendendo a integração entre departamentos e a qualificação dos profissionais. A entidade mantém ainda um grupo de trabalho voltado às categorias de base, enquanto sua lista atualizada de clubes formadores mostra a dimensão nacional da estrutura de desenvolvimento de jogadores.

Na prática, a tendência é que o scout brasileiro deixe de depender exclusivamente do olhar humano e passe a combinar experiência com dados. Um observador pode perceber que determinado meia tem boa leitura de jogo, por exemplo, enquanto uma plataforma consegue transformar essa avaliação em dezenas de indicadores e compará-la com milhares de outros atletas. É justamente nessa combinação que a inteligência artificial pode ganhar espaço sem eliminar a importância do profissional de futebol.

O que muda para clubes, categorias de base e jogadores

A principal transformação pode acontecer no mercado de formação. Se uma ferramenta consegue identificar padrões de desempenho antes que um atleta se torne conhecido nacionalmente, clubes com estruturas menores podem ganhar uma possibilidade de competir pela descoberta de jogadores que tradicionalmente seriam monitorados apenas por equipes maiores. Isso pode reduzir parte da vantagem que os gigantes possuem na observação de talentos e tornar o mercado de base ainda mais disputado.

Ao mesmo tempo, a tecnologia pode alterar a forma como um jogador é avaliado. Em vez de considerar apenas gols, assistências ou avaliações subjetivas, os clubes podem cruzar informações sobre intensidade, tomada de decisão, movimentação, evolução física, participação defensiva e comportamento durante diferentes momentos das partidas. Quanto mais confiáveis forem os dados disponíveis, maior será a possibilidade de identificar evolução antes que ela apareça de maneira evidente para o público. Esse processo interessa diretamente ao futebol brasileiro porque a formação de atletas continua sendo uma das principais fontes de competitividade e receita dos clubes.

A própria CBF afirma que a formação de jovens atletas é estratégica para o futuro do futebol nacional e vem discutindo melhorias no modelo de categorias de base. A certificação de clubes formadores estabelece critérios técnicos e esportivos, enquanto a entidade também debate calendário, proteção dos jovens e desenvolvimento do futebol feminino de base.

Mas existe um limite importante: dados não são sinônimo de talento. Um algoritmo pode identificar padrões estatísticos, mas não compreende sozinho todos os elementos que influenciam a carreira de um atleta, como adaptação a ambientes diferentes, maturidade emocional, contexto familiar, capacidade de aprendizado e resposta à pressão. Por isso, o cenário mais provável é de uma transformação do trabalho dos profissionais, e não de sua substituição. O bom scout do futuro tende a ser aquele que sabe interpretar os dados produzidos pela tecnologia e confrontá-los com aquilo que observa no campo.

Tecnologia também muda a experiência do torcedor

A transformação tecnológica não ficará restrita às categorias de base. A Confut Sudamericana colocou no centro das discussões justamente a relação entre tecnologia, infraestrutura, desempenho esportivo, negócios e experiência do torcedor. O evento realizado no Rio de Janeiro reuniu clubes, empresas, patrocinadores e profissionais do setor para discutir como o futebol pode utilizar inovação para melhorar sua operação e criar novas formas de relacionamento com o público.

Isso significa que o torcedor poderá perceber cada vez mais os efeitos da tecnologia fora das quatro linhas. Sistemas digitais podem facilitar acesso aos estádios, personalizar ofertas, organizar informações de partidas, melhorar serviços e ajudar clubes a entender hábitos de consumo. Ao mesmo tempo, ferramentas de análise de dados podem produzir estatísticas mais detalhadas para transmissões e plataformas digitais, aumentando a quantidade de informação disponível para quem acompanha Brasileirão, Copa do Brasil e competições internacionais.

A arbitragem oferece outro exemplo concreto de como essa transformação já chegou ao futebol brasileiro. A CBF implantou o impedimento semiautomático na Série A a partir da 20ª rodada, com câmeras dedicadas, servidores nos estádios e integração ao VAR. O sistema utiliza dados capturados pelas câmeras para identificar jogadores envolvidos, localizar o momento do passe e produzir uma representação tridimensional da situação em poucos segundos.

O ponto mais importante é que a tecnologia começa a formar uma espécie de infraestrutura digital do futebol brasileiro. Ela está presente na arbitragem, avança no scouting, influencia a gestão e passa a fazer parte da experiência do torcedor. Para os clubes, isso significa que investir apenas em jogadores pode não ser suficiente: capacidade de trabalhar com dados, formar profissionais especializados e proteger informações também tende a virar vantagem competitiva.

O futebol brasileiro sempre teve como patrimônio a capacidade de revelar talentos onde poucos esperavam encontrar. A inteligência artificial pode ampliar essa característica ao permitir que clubes procurem jogadores em uma escala que seria impossível para equipes humanas isoladamente. O desafio será garantir que a tecnologia sirva como instrumento de desenvolvimento, e não como uma máquina de decisões automáticas sem contexto.

Para o torcedor, a mudança pode ser percebida aos poucos: novos nomes encontrados mais cedo, análises mais detalhadas, decisões de arbitragem apoiadas por sistemas digitais e estádios cada vez mais conectados. A próxima geração de craques talvez continue sendo descoberta em campos de terra, campeonatos regionais e categorias de base, mas o caminho até chegar aos grandes clubes poderá passar cada vez mais por dados, algoritmos e inteligência artificial. O futebol continuará sendo jogado por pessoas; a diferença é que, cada vez mais, haverá tecnologia ajudando a decidir onde procurar essas pessoas.

Fontes: CBF – gestão e formação de atletas · CBF – clubes formadores · CBF – impedimento semiautomático · CNN Brasil – Confut debate tecnologia e futuro do futebol · Distrito do Esporte – IA na identificação de talentos

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Marcos Delviera
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